SEU POPINI e Dona Elitréia tinham juntos, 166 anos de vida,
85 e 81, respectivamente.
— “Muito bem vividos” — falavam para parentes e amigos.
Apesar da idade já avançada, possuíam, ainda, uma chama
jovial.
Por volta de 13h30 de uma quarta-feira qualquer, tomaram o
ônibus que os levaria de volta para casa. Haviam terminado a
visita semanal ao Instituto de Gerontologia Marquês de Sá, onde
realizavam exames de rotina.
Apesar do horário, a condução estava com todos os assentos
Preenchidos. A linha possuía poucos veículos.
Espertos, pararam ao lado de uma dupla de estudantes que
papeava descompromissadamente, que vendo não haver alternativa,
cederam seus lugares.
Breno e João Pedro notaram que o casal de idosos conversava
naturalmente sobre sexo. Disfarçadamente, escutavam
tudo atentamente, se divertindo bastante.
Estavam impressionados com o conhecimento “técnico” com
o qual o casal dominava o assunto.
Apaixonados, eles trocavam carícias, cafunés e chamegos.
Em dado momento, se entreolharam e começaram um longo
e ardente beijo. Fora inevitável que todos no ônibus dirigissem
seus olhares para a cena, digna de filme hollyudiano.
O ósculo não demorara cerca de cinco minutos, com a platéia
totalmente hipnotizada, Seu Popo e Dona Lili, não se importavam
com a curiosidade alheia. Estavam acostumados. No
íntimo até gostavam.
Ao término da situação, Dona Elitréia percebera que algo
lhe faltava. Sua boca estava mole, sentia somente a língua e
nada mais. Temendo pelo pior, abrira um sorriso, ainda que sem
vontade, para o marido, que exclamara:
— Meu doce de coco. Sua dentadura sumiu!
João Pedro não se contivera.
— Gente, a perereca da vizinha não ta presa na gaiola.
Nem um pouco acanhados, os jovens senhores pediram a
ajuda de todos na busca.
— Ao invés de ficarem aí parados, rindo. Por que não ajudam
a procurar a perereca da minha véia? Apesar, de reconhecer que
meu beijo é gostoso e sufocante, com certeza não a engoli.
A “deixa” foi o que faltava para tornar o ambiente do coletivo
um verdadeiro espetáculo circense. Piadas e anedotas vinham
de todos os lados. As gargalhadas podiam ser ouvidas da
rua, o ônibus chegava sacolejar.
Solidários com a circunstância, a maioria dos passageiros se
ajoelhara no chão, olhando sob os bancos para ver se encontrava
o utensílio de mastigar de Dona Elitréia. Preocupada, ela
começara a chorar, talvez imaginando que não poderia comer
suas rosquinhas de chocolate no chá da tarde.
Seu esposo, de cabeça baixa, lamentava a situação. Vendo
o estado triste que sua mulher se encontrava, revolvera puxá-la
para seu colo.
O amor vencia qualquer banguelice que fosse.
Confortada por seu grande companheiro de décadas e bem
mais calma, Dona Elitréia, resolvera relaxar em seu assento.
Quando de súbito um grito ecoara.
— AI MEU DEUS. ALGUM BICHO MORDEU MINHA
POUPANÇA!
— Deve ter sido o leão do imposto de renda, minha senhora. – Breno implicara.
— Deixa de ser burro rapaz! Caderneta de poupança não
tem abatimento de IR. — To vendo que você ta lascado na aula
de finanças, heim! – prosseguia João Pedro.
Dolorida, ela se levantou, junto a nádega esquerda, sua dentadura.
No ápice do momento tórrido de paixão, não havia percebido
que sua perereca estava escorregadia. Indo parar diretamente debaixo
do seu corpo.
— Meus netinhos, minha perereca estava colada na minha
bunda. Que felicidade encontrá-la. Sem ela eu não conseguiria
morder as linguiças dos cachorros-quentes da barraca do Lobo.
Meu lanchinho preferido. - Obrigada a todos pela ajuda na caça à minha companheira
bucal.
E o casal prosseguira sua viagem, como se nada tivesse acontecido...
Apesar da imensa dor que Dona Elitréia, ainda, sentia.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
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