quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

TIRO PELA CULATRA

DIAS E Almeida pareciam ter sido separados na maternidade.
Apesar da diferença de raça, o primeiro moreno, sendo o
segundo branco, agiam como verdadeiros irmãos. Conheceram-se
no trabalho, mas a amizade que passaram a nutrir ultrapassara
os limites impostos pelos muros da empresa. Moravam em
bairros vizinhos, e como tal, seguiam sempre juntos para casa.
Como passatempo para a viagem tinham dois hábitos. Um era
apelidar os passageiros que cruzavam a roleta, alcunhando-os
com nomes de artistas, devido às suas semelhanças com pessoas
famosas. O segundo costume era ver quem conseguia terminar
primeiro de comer as pipocas que, diariamente, compravam na
barraquinha do Barão.
Atentos, notavam que todas as terças e quintas-feiras, uma
linda jovem ruiva pegava o ônibus no mesmo horário, sempre
vestida de branco. Parecia trabalhar na área de saúde.
— Imagina uma enfermeira dessas cuidando de mim hein
Dias! – dizia Almeida, visivelmente mexido com a beleza da
mulher.
— É, cara, acho que ela tem interesse em você. Sempre
que entra na condução, te dá uma baita olhada de “rabo de
olho”.
Almeida falava aos quatro cantos que Dias era seu melhor amigo motivacional.
Em verdade, formavam uma dupla irrepreensível.
— Será velho? Vou partir para o ataque. – Brilson, como
era apelidado Almeida, não se continha.
— Isso mesmo. Mas temos que pensar numa forma de
abordá-la sem que ela perceba o seu interesse. Sabe como é
não podemos dar confiança, caso contrário as mulheres querem
logo deitar na nossa sopa.
E assim seguiram, se divertindo na viagem diária de volta
para casa.
Na quarta-feira, Almeida, que não conseguira dormir, pensando
em uma forma de abordar a mulher, surgira com uma
novidade.
— Parceiro, pensei numa estratégia que duvido não funcionar.
Passando toda a tática para seu amigo-irmão Dias que, apesar
de achar louca a idéia, concordara e apoiara. Aliás, idéias
exóticas e um tanto quanto doidas, eram características de ambos.
Devidamente acordados, era só esperar o dia seguinte, que
não demorara a chegar.
O expediente passara voando. Como de praxe, passaram
na carrocinha do pipoqueiro e seguiram em direção ao ônibus.
Já devidamente acomodados, após o coletivo dar a partida, o
ponto da jovem mulher de branco se aproximava.
— Tá chegando a hora cara. Hoje ela não me escapa.
Ao adentrar a condução, Lucinda, era como se chamava,
sentara no banco ao lado dos rapazes. Como, aliás, fazia rotineiramente.
Alguns minutos depois Brilson dera o sinal para que começassem
a por o plano em prática.
— Meu Deus, alguém nos ajude. Acho que meu amigo está
se engasgando com o milho da pipoca. Socorro, socorro... –
Dias, interpretava de forma magistral.
Vermelho feito um tomate, Almeida tossia sem parar, seus
olhos reviravam.
Solidária, Lucinda se aproximara rapidamente de Brilson, se
ajoelhando ao seu lado.
Satisfeito com o plano que havia dado certo, ele piscara para
Dias, que devolvera fazendo um sorrateiro gesto de positivo.
Após pedir que todos se afastassem, a mulher começara o
trabalho, pegando o jovem pela cabeça.
— Sai desse corpo que não te pertence mau espírito.
Um um, donhie. Um um. Defire sabidu ereitaxa. – ela falava
palavras incompreensíveis.
Assustado Dias tentara interromper, sendo repreendido pela
jovem, que com os olhos esbranquiçados, continuava.
— Ati feeeeee ieeeeeeeee. Um um. Da piro manhô.
Almeida tremia mais do que vara verde, seu corpo
não parava um só instante. O medo percorria todo seu corpo.
— Ta vendu meu fio, são us má espiritus si manifestando.
Uuuu ummm...
— Continue, continue, por favor. Salve meu irmão – se divertia
Dias, que percebera no fato, a chance de tripudiar de
Almeida pelo resto de suas vidas.
Após um extenso período e sacudidelas em sua cabeça, baforadas
de charuto em seu rosto, pancadas violentas em seu
peito, Brilson num gesto único, gritara em alto e bom som.
— MILAGRE, MILAGRE, ESTOU CURADO! VAMOS
DIAS, CORRA, TEMOS QUE CONTAR A TODO MUNDO
SOBRE A CURANDEIRA QUE TEMOS EM NOSSA
CIDADE. VAI QUE OUTRA PESSOA PRECISE DOS SERVIÇOS DELA.
Àquela altura seu amigo já se encontrava a metros de distância
correndo. Esperto, Dias sabia que, no mínimo, Brilson
queria lhe arrancar o fígado e fritá-lo ao alho e óleo.

Nenhum comentário: